2008/04/04

Do baú

Tinha uma visão muito compartimentada das relações amorosas, fruto da educação fortemente católica ministrada pelo lado materno. Quando a amiga o abordou, dizendo que Joana estava à espera dele numa das salas da escola, nem lhe passou pela cabeça qual seria o objectivo da jovem. Ela saíra há pouco de uma relação com um colega da turma dele, e ele nutria uma paixão platónica por outra rapariga, expressa em olhares ardentes e por um beijo rápido na face patrocinado por um outro colega durante um intervalo. Aliás, já nessa altura não tinha tido o discernimento de perceber o alcance da aceitação dessa outra jovem do convite do interposto amigo para o beijo na face que selava o encontro de troca de nomes. Aquilo que lhe estava no sangue era, no entanto, a capacidade verbal de brincar com as palavras de forma a deixar uma forte impressão em quem o ouvia. Mais tarde desenvolveria essa mesma capacidade para a expressão escrita, com aumento do impacto produzido.

Entrou na sala atrás da amiga de Joana. Naquela altura era comum que um pequeno grupo de alunos ocupasse uma sala de aula vazia para estudar. Ou, pelo menos, dedicar-se a alguma actividade relativamente silenciosa. Joana estava a estudar e precisava da sua ajuda, já que ele estava dois anos à frente. Breve troca de palavras entre as raparigas, rematada por frase lapidar “Fica com o homem, que eu não to como” e abandono da sala. Ficaram sós, a rapariga lá inventou uma dúvida que mascarasse o real objectivo do estudo e ainda conseguiu articular mais uma frase, em jeito de tentativa desesperada de o fazer abrir os olhos: “Era dum homem assim que eu precisava”.

Recordou-se da cena, despoletada pela música do George Michael cuja letra conhecia de cor, “Careless Whispers”. Era o tempo da música da frente, mas por alguma razão provavelmente ligada à atracção pelo sexo oposto gostava dessa letra. Nessa altura Joana fez passar pelos seus amigos um pequeno caderno de recolha de informações pessoais, afinal não havia Internet mas as cabecinhas pensavam de forma semelhante, sendo a última uma pergunta inversa. Questionou a altura em que ela se esqueceria definitivamente daquele caderno, após ter respondido à pergunta da música favorita com esta que agora ouvia. Há já muito tempo que passara a entender as razões de certas atitudes tomadas pelas raparigas com quem se fora cruzando, quantas delas, as atitudes, incompreendidas na altura. Objecto de aturado estudo, o cérebro feminino tornara-se, ao longo do tempo, menos misterioso e enigmático.

Também sorri ao perceber a quantidade de dores de cabeça poupadas pela entrada tardia no mundo das mulheres. E a não menos importante quantidade de passeios e viagens tranquilas.

1 Comments:

At 9:58 da manhã, Anonymous Robina said...

Então? Tá tudo, meu? :-)

 

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