2009/04/21

Por terras da raia.

Saiu do comboio e olhou para o relógio. Pouco passava das nove da manhã. Tinha saído de Paris na tarde anterior e passara a noite no caminho para Hendaye, pouco tinha dormido, nunca conseguia adormecer profundamente numa cadeira, por mais confortável que fosse. O próximo comboio, aquele que o levaria de volta a casa, só saía às seis da tarde, pelo que tinha muita curiosidade a satisfazer. Sabia o mapa de cor, por isso optou por guardar a grande mochila na estação do comboio e percorrer a pé a distância que o separava do Golfo da Biscaia. Não havia cacifos na estação, viviam-se tempos conturbados por via da actividade da organização separatista, mas conseguiu convencer um grupo de trabalhadores a guardar os seus haveres, assegurando-se de que levava consigo tudo o que era importante. Não era muita coisa, para além dos documentos e algum dinheiro.

Chegou à praia e não resistiu a entrar na água, com o improviso da roupa interior a servir de calção de banho, ninguém o conhecia e estava demasiado cansado e mais ainda interessado em não perder a oportunidade para se importar com o que quer que alguém pudesse pensar. Saiu e deitou-se na areia, a aproveitar o sol outonal, sol que tinha trocado durante o Verão pelos campos de uma terreola inglesa.

Quando se levantou deu conta que o cabelo castanho claro estava ainda mais alourado pelo sal do mar, além de indomável e espetado. Voltou a não se importar e entrou numa loja à procura de alguma coisa que servisse de almoço, pouco mais do que leite, fruta e umas bolachas pois nunca tinha apetite quando o tempo era pouco para a exploração de lugares onde nunca estivera, sendo alvo do olhar apreensivo da senhora da caixa. Pagou e saiu, convencido de ter sido tomado por separatista. Só muitos anos mais tarde se apercebeu de que apenas tinha sido tido por maltrapilho.

Já no comboio sentou-se a seu lado uma rapariga franzina que trabalhava por aqueles lados e ia a casa de visita à família. O seu português já estava muito misturado com castelhano, apesar do pouco tempo que dizia ter passado desde a saída de Portugal. A carruagem era daquelas com corredor lateral e compartimentos de dois bancos corridos transversais ao deslocamento do comboio, com porta deslizante para isolamento. Foi enchendo e esvaziando ao ritmo das estações, até que em Burgos saíram os militares espanhóis entrados algumas paragens antes e ficaram ambos sós a caminho de Portugal. Tinha já anoitecido e a temperatura caíra, tornando as roupas de Verão insuficientes para se sentirem confortáveis. Decidiram deitar-se ao comprido nos bancos, um em cada um deles, para dormir até ao destino. Ele tinha o saco-cama com que passara as últimas semanas, ela apenas a roupa que trazia. Levantou-se e ofereceu-lho, para que dormisse mais quente. Ela prontamente recusou. Deitou-se então coberto com o agasalho e ensaiou a pergunta seguinte. Fez um esforço para que a voz não se lhe apagasse a meio e sugeriu então que o partilhassem.

Apesar de franzina, as suas formas acabaram por revelar-se anatomicamente perfeitas. O saco-cama, esse, voltou a revelar-se extremamente acolhedor e capaz de aumentar rapidamente a temperatura corporal. Ou isso, ou as quentes terras raianas.

2 Comments:

At 11:29 da tarde, Blogger maria_arvore said...

Está excelente esta tese sobre a importância do saco-cama. :)

 
At 8:50 da manhã, Blogger Ness said...

É, sem dúvida, Maria, uma temática interessante. Merece, inclusivamente, ser desenvolvida. A ver se interrompo os testes de infalibilidade ;)

 

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