2009/02/26

Levemente surreal (I)

Olhou para o relógio. Eram cinco e meia da manhã. Tinha conseguido marcar a reunião para as 11, mas estava todo fodido e não sabia como havia de recuperar a tempo para a apresentação. E ainda tinha que apanhar o taxi de novo, para ir buscar o carro ao centro de Albufeira. Foda-se, quem é que tinha marcado o filho da puta do hotel em Faro, se a animação está toda em Albufeira. Mesmo sabendo que o cliente é de Faro.


Nunca mais páro com esta merda, pensava, enquanto entrava no quarto, porque é que o caralho das gajas se metem sempre à minha frente. E estão umas descaradonas que não se aguenta. Esta tinha a mania das casas de banho públicas. Mas que par de pernas até ao infinito.


Ouviu a amiga ruiva a rir-se à gargalhada e não conteve a curiosidade, voltando a cabeça para a mesa ocupada três filas ao lado. Eram duas mulheres ainda jovens, mas com ar de quem conhece os melhores segredos da vida. A ruiva devolveu-lhe o olhar, com um sorriso de convite a noite com companhia. Sempre fugiu de mulheres com cara de disponíveis, pelo que olhou para a morena em frente à atiradiça. Tinha cabelo liso comprido, negro, ombros largos, peito pouco desenvolvido para a estatura, mas com volume que se adivinhava suficiente para as suas mãos, que nem são pequenas. E umas pernas longas saídas de uma saia que, na posição sentada em que estava, lhe tapavam apenas metade do comprimento femural.


Desviou propositadamente o olhar para a sósia da Marylin Monroe que entrava no restaurante atrás de um homem moreno de fato branco com ar de empresário da noite e olhou rapidamente de lado ainda a tempo de perceber que a morena estava interessada no seu gesto. Ele percebeu que elas falavam inglês. No final da refeição dirigiu-se ao balcão para tomar café, não sem lançar um sorriso à ruiva para que ela lhe seguisse os passos. Aquele recanto do restaurante lembrava vagamente um pub inglês. A ruiva parou ao seu lado e hesitou na escolha, dando-lhe o tempo suficiente para a frase que já tinha ensaiado. “I suggest an old dry Port as the perfect end for a delightful meal. Please allow me the honour of offering something from my own town”. A ruiva deu mais uma gargalhada estridente, mas ele estava mais interessado no sorriso leve da amiga morena. “I'm Carlos and I'm from Porto, English say Oporto”. “I'm Allison and we are from Manchester”, respondeu a interlocutora. “Would you rather have a soft drink, Allison's friend?”, arriscou Carlos, em tom que indicava à morena qual o seu interesse. A resposta da visada não se fez esperar, sob a forma de um pedido ao barman, entretanto chegado. “Malt whisky, straight, please”. E com os olhos no empregado, acrescentou um “I like it harder”.

3 Comments:

At 10:17 da tarde, Blogger maria_arvore said...

Está delicioso. :)

Só me pergunto porque é que os homens se sentem perturbados por serem vistos como troféus de caça. ;)

 
At 11:53 da tarde, Blogger Ness Xpress said...

Diz-me, Maria, as mães modernas já deixaram de ensinar aos filhos qual é a hierarquia que pretendem para as mulheres na sua (deles) cabeça?

 
At 11:38 da tarde, Blogger maria_arvore said...

Apesar das mulheres continuarem a ser as primeiras culpadas pela situação também ninguém obriga um homem a ficar sempre «agarrado às saias da mamã». ;)

 

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